quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O cadáver no armário

A notícia da exumação do ex-presidente João Goulart tem gerado debates que, na maior parte das vezes, são marcados pelo desconhecimento da história, pela superficialidade de argumentos e, como é comum em tempos de redes sociais, pelas “opiniões de manada”.

Os primeiros se referem a Jango como o presidente que queria implantar o comunismo no Brasil. É uma ideia absurda e que não encontra amparo na realidade. Aliás, foi exatamente esse o argumento daqueles que deram o Golpe Militar em 64. Se a preguiça de ler (e entender) a história for muito grande, basta uma busca rápida pelos principais jornais do país na véspera do golpe. Ali estão todos os argumentos rasos que se usaram na época e que, incrivelmente, são repetidos hoje, passados 50 anos, por aqueles que desconhecem a história e/ou se opõe a que se conheça a verdade.

Jango queria sim fazer mudanças profundas e estruturais no país. Suas reformas, que tanto assustaram (e assustam) uma elite acostumada ao status quo de beneficiários do poder, tinham sim um viés fortemente social. Pode-se até dizer socialista. Mas confundir isso com comunismo é: A) burrice; B) preconceito; C) desconhecimento; D) ressentimento; E) todas as anteriores.

O segundo grupo, tributário do primeiro, é formado por aqueles que chamam o processo de exumação do corpo de Jango (ou a criação da Comissão da Verdade) de revanchismo. Ora, conhecer a própria história não tem a ver com revanchismo, vingança, represália, retaliação ou qualquer outro dos termos comumente usados nesses debates. Trata-se, isso sim, de saber de fato o que aconteceu. E se isso tem um custo (outro dos argumentos superficiais) não tem preço! Como diria Cícero: “Aquele que desconhece a história será para sempre criança”. Ou, se preferirmos Kant, jamais sairá da menoridade e será para sempre tutelado.

Vários países que sofreram períodos ditatoriais estão passando a limpo sua história. Espanha, Chile, Argentina e Uruguai, para ficar apenas em alguns exemplos, tiveram a coragem de tirar seus cadáveres do armário e encarar o seu passado. E depois disso o sentimento geral foi, acima de tudo, de reconciliação.

O terceiro grupo é o habitat natural dos preguiçosos, cujos raciocínios são de curto alcance e, portanto, torna-se mais fácil seguir o que a maioria diz. É o grupo predominante nas redes sociais, onde um comentário raso, mas potencialmente polêmico e popular, agrega seguidores-ameba, ou seja, sem capacidade de pensamentos próprios. O argumento mais utilizado no caso concreto é o famoso e já gasto “ao invés de gastar dinheiro com isso deveriam investir em saúde, etc”. Com o qual todos os seguidores-ameba concordam, adicionando outros exemplos do melhor uso de verbas públicas. Gestores de primeira, sem dúvida. Mas esquecem que, como já dito, conhecer a história tem um custo, mas não tem preço.

É possível que ao final de todos os exames conclua-se que Jango morreu mesmo de causas naturais. Ou que não se conclua nada! A questão é que a história voltou a ser discutida e debatida. Ainda que, por vezes, de forma tão rasa. Jango merecia esse resgate. Podia ter resistido (ainda que sem muitas chances) e acabaria deflagrando uma guerra civil, com contornos imprevisíveis. Preferiu o exílio, o desterro, a saudade e o esquecimento. O Brasil tem uma dívida histórica com esse homem. Que agora começa a ser paga.


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