segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O naufrágio em Lampedusa e o paradoxo da xenofobia europeia

O recente naufrágio próximo a ilha de Lampedusa, na Itália, carrega em si um simbolismo mais forte do que a mídia tem conseguido interpretar. A frágil embarcação trazia cerca de 500 pessoas a bordo, das quais apenas 155 foram resgatadas com vida. Infelizmente, é provável que todas outras tenham morrido. Os corpos ainda estão sendo resgatados.

E esse é exatamente o ponto de que trata esse post. A mídia, sobretudo a brasileira, não demonstra a mínima capacidade de contextualizar a situação. Primeiro porque tem preguiça (ou simplesmente não sabe como fazer), e apenas reproduz o que as agências internacionais produzem. Sequer menciona que os imigrantes, na sua maioria refugiados da Somália e Eritreia, buscavam a Itália não por um acaso da natureza. Ocorre que esses países, assim como a Etiópia, foram colônias italianas por quase 100 anos. Exploradas de todas as formas possíveis e imagináveis, essas nações apresentam hoje índices baixíssimos de desenvolvimento humano. A Somália, em especial, vive uma sangrenta guerra civil há mais de 20 anos.

Pessoas desses e de outros países africanos buscam a Europa para tentar sobreviver. E também para cobrar uma dívida histórica. Mas, façamos um parêntese para entender o que pensam do outro lado do Mediterrâneo.

Walfare State

A Europa vive uma crise. Econômica, claro. Política, sem dúvida. Mas, sobretudo, uma crise de identidade. O Velho Continente, que na segunda metade do século XX foi um esplendor do humanismo, hoje volta-se para velhas divisões e maniqueísmos.

Depois da 2º Guerra Mundial, com a Europa praticamente em ruínas, surgiu o conceito do “bem-estar social”. Baseado no keynesianismo, a ideia era que os governos provessem aos cidadãos recursos mínimos de subsistência. O “Estado Providência” garantiria a todo o indivíduo, desde seu nascimento até a sua morte, uma série de bens e serviços, através de sua capacidade de regulamentação sobre a sociedade. Entre esses direitos se incluem educação em todos os níveis, a assistência médica gratuita, o auxílio desemprego, uma renda mínima, etc. Nada disso como favor, esclareça-se. É o retorno dos impostos, reinvestidos na sociedade, de maneira inteligente e equitativa.

Ao longo de toda a segunda metade do século XX, este modelo se estabeleceu no continente, moldando as políticas públicas para a sociedade europeia. Tais políticas geraram, ao longo dos anos, um custo cumulativo, que agora se apresenta impagável.

A previdência, justamente um dos pontos que os governos vêm tentando modificar, tem um papel relevante nesta fatura. Primeiro porque a idade de aposentadoria em quase toda a Europa é relativamente baixa, por volta dos 60 anos. Segundo, a expectativa de vida cresceu consideravelmente nas últimas décadas. Logo, os aposentados ficam, cerca de 20 anos (ou mais) recebendo benefícios. E um terceiro fator é justamente o envelhecimento generalizado da população européia. Ou seja, há cada vez menos jovens no mercado de trabalho para bancar uma crescente demanda da previdência.

Cortes

Os cortes anunciados na Europa incidem, basicamente, sobre a política social. Ou seja, quem vai pagar a conta pela ineficiência do Estado será o cidadão. Em alguns casos, os benefícios sociais se tornaram, de fato, inviáveis. Porém, a solução pelo corte puro e simples a longo prazo cria um problema ainda maior. Cortando-se postos de trabalho, prejudica-se a economia, gera um maior número de desempregados, que por sua vez, vão demandar mais ações do Estado. Cortando-se benefícios como assistência à saúde, de modo preventivo, amplia-se a demanda por assistência médica mais complexa, que por sua vez custa mais caro aos cofres públicos.

Com a guinada à direita que vive a Europa hoje, os governos estão preocupados em dar sinais de agilidade e eficiência ao mercado. Mas com protestos, paralisações, greves e desemprego, não há mercado que resista. Mais uma vez, a cartilha liberal parece ignorar as lições que a onda do “laissez-faire, laissez-passer” causou ao mundo na crise de crédito. Guilherme Alexandre, recém coroado rei da Holanda (um dos países, aliás, que mais se beneficiaram com a exploração do continente africano) disse, ao assumir o trono, que não há mais espaço para o Walfare State. Para o "pobre" rei, que nunca precisou trabalhar na vida, as pessoas têm que aprender a se virar sem a ajuda do Estado.

Além destas questões, há outra que sacode a Europa hoje. Como sempre em momentos de crises estruturais é preciso achar um bode expiatório. Isso já criou situações delicadas e dramáticas. E cria também um paradoxo interessante.

O paradoxo da xenofobia

Como se não bastassem os efeitos devastadores da crise sobre o velho mundo, nos últimos anos a Europa tem vivenciado uma onda de xenofobia sem precedentes. Porque desta vez, não só parcela da sociedade hostiliza os imigrantes, mas as autoridades têm criado diversos complicadores para a vida de estrangeiros por lá. A Itália, por exemplo, implantou recentemente regras mais rígidas nesse sentido. Ainda que sua Ministra da Integração seja, ironicamente, uma africana, a ítalo-congolesa Cecile Kyenge (o Congo foi durante décadas colônia belga).

Porém, isso cria um complexo paradoxo: por um lado, os imigrantes (oriundos, sobretudo, do norte da África, Eurásia e leste europeu) são acusados de causar o desemprego entre europeus, mas por outro, é a mão de obra imigrante que ocupa as vagas que os “desenvolvidos” não querem. Outro argumento da xenofobia é que os imigrantes são cada vez mais numerosos, tem uma média de três filhos e não param de chegar. De outro lado, a Europa está cada vez mais velha, com uma taxa de natividade baixíssima e, consequentemente, um decréscimo populacional acentuado.

Por tudo isso, o momento por que passa a Europa é delicado e gera preocupação. O mundo espera o desfecho dessa crise com ansiedade. E torce para que medidas populistas e apressadas deem lugar a ações refletidas, políticas duradouras de crescimento sustentável e, principalmente, reconciliação da Europa com sua tradição de pluralidade e tolerância.

Para terminar, uma frase do grande etíope Abebe Bikila, bicampeão olímpico da Maratona, depois de vencer em Roma. Bikila, que correu descalço, viu no dia anterior à prova um monumento que os romanos haviam roubado de seu país. Depois de vencer ele disse: "foram precisos milhares de romanos para conquistar a Etiópia, mas apenas um etíope para conquistar Roma".

P.S. Outra embarcação naufragou nas mesmas circunstâncias dias atrás. Outras virão... A questão é o que fazer com elas.

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