quinta-feira, 18 de julho de 2013

Um tiro no pé e outro na testa: ou o perigo de botar tudo a perder!

As manifestações que sacudiram o país nas últimas semanas deram uma excelente demonstração do que a mobilização política, sobretudo através das redes sociais, pode fazer. Já falamos disso em posts anteriores e este, portanto, vai tratar dos possíveis desdobramentos desses eventos.

Como dissemos, todos essas mobilizações ao redor do mundo, inclusive no Brasil, são tributárias, de alguma forma, da Primavera Árabe, que inaugurou um novo modelo de mobilização social. Um dos países onde ela ainda segue atuante é o Egito e esse é um belo exemplo para análise. O outro é a Espanha, com seu movimento dos Indignados e suas vertentes como o 15M, Democracia Real Ya!, entre outros. Um e outro, guardadas as devidas proporções e especifidades, têm muito a nos ensinar. E é bom prestarmos atenção.

Começando pelo Egito. É um dos principais (senão o principal) países árabes. Pelo sua história, por sua localização e pela influência que exerce sobre os demais. As eleições que ocorreram no ano passado, após a queda de Hosni Mubarak (30 anos no poder), não foram apenas as primeiras depois de 80 anos de ditadura (Nasser, Sadat, Mubarak). Foram as primeiras na história milenar do Egito. Tem-se aí uma ideia do quanto aquela sociedade ansiava por sair da tutela de um governo despótico, buscar a democracia e se emancipar politicamente.

Pois bem, depois de toda a luta para conquistar a democracia e eleger um presidente, os egípcios voltaram às ruas e a Praça Tahrir para pedir a renúncia de Mohamed Morsi, eleito democraticamente e pertencente à Irmandade Muçulmana, partido que defende um retorno ao islamismo na política, embora atualmente com contornos mais moderados. O que aconteceu? Os militares retomaram o poder e o país agora, extremamente dividido, pode caminhar para uma guerra civil, semelhante à que assistimos na Síria hoje. As Forças Armadas Egípcias sempre foram o fiel da balança na política do país. É claro que as pessoas que protestavam contra Morsi, pelos seus retrocessos em relação ao secularismo, não queriam os militares de volta ao poder. Mas era previsível que isso acontecesse. Embora os Estados Unidos, avalistas do Egito (sobretudo pelo acordo de paz com Israel) não queiram admitir que foi um golpe militar é exatamente disso que se trata. Ou seja, do céu ao inferno em pouco menos de um ano.

A Espanha é outro país que pode nos dar lições. Essa bela nação, que tanto influenciou a história de nosso continente, vive um dos seus piores momentos. Pelo menos do ponto de vista social. Cerca da 25% da população economicamente ativa (PEA) do país está desempregada. A grande maioria desses "parados" são de jovens, sobretudo, com curso superior. A crise econômica na Espanha, que vinha surfando em altos índices de crescimento desde os anos noventa, começa a se desenhar antes da crise mundial de 2008. O governo Aznar, no entanto, tinha boas chances de reeleição, mas o atentado terrorista em Madrid (Março de 2004) e a tentativa do governo de condenar o grupo separatista ETA pela autoria da tragédia pegaram mal no eleitorado que acabou escolhendo o socialista Zapatero para assumir o comando do país.

Zapatero pegou a Espanha a beira de um colapso. Ainda assim, conseguiu manter-se no cargo até 2011, quando os protestos chegaram com força na Espanha, pedindo uma nova era na política do país. Cabe ressaltar que a Espanha é ainda mais polarizada que o Brasil: se aqui PT e PSDB agregam ao redor de si as mais diferentes matrizes partidárias, lá o PSOE (centro-esquerda) e o PP (direita) praticamente dividem sozinhos a atenção do eleitorado. E esse é o ponto que queríamos chegar. Uma das grandes bandeiras do movimento dos Indignados era o da democracia direta. E uma das campanhas que eles mobilizaram foi a "No les vote" (não vote neles, em tradução livre). Essa mobilização, gerada, obviamente, nas redes sociais, teve grande impacto nas eleições de 2011. Explico: a grande maioria dos que aderiram a campanha era justamente formada pelos jovens que estavam nas ruas protestando. Em tese, eleitores do PSOE. Com o esvaziamento do eleitorado de esquerda, a direita não teve muita dificuldade em conseguir a maioria das cadeiras do congresso e, portanto, indicar Mariano Rajoy, do PP, como chefe de governo.

Não se trata de fazer um juízo de valor entre esquerda e direita. Mas quando se abre mão de um dos poucos mecanismos de atuação política, o voto, corre-se o risco de se dar um tiro no pé. Resultado: hoje a Espanha está pior do que em 2011 e os índices de rejeição a Rajoy crescem diariamente. E os espanhóis estão, assim como os egípcios, novamente nas ruas.

O Brasil hoje está diante de uma encruzilhada. E isso é algo muito bom! Pode pegar o caminho correto, exigindo mais do que uma reforma política, mas uma reforma dos políticos. Ou seja, da maneira como se faz política e se enxerga a coisa pública no país. Transparência, ética, decência e honestidade não é favor, é obrigação, sobretudo para aqueles que decidem sobre o futuro da nação. E a sociedade já deu provas que pode se mobilizar rapidamente e exigir que elas sejam praticadas. 

O outro caminho é o da demagogia. É quando grupos políticos, sejam eles quais forem, tentam se colocar como porta-vozes das demandas sociais do momento. Ainda nessa mesma estrada encontramos os aventureiros, hipócritas e outros da mesma espécie que pregam o fim de tudo, a anarquia e, em última instância, o caos causado pelo vandalismo de bandidos que nada tem a ver com as justas reivindicações da sociedade. 

É uma oportunidade única: os políticos estão acuados, a sociedade está mobilizada e esse é o momento das grandes transformações. Mas não se pode errar o caminho, sob pena de darmos um grande tiro no pé e botarmos tudo a perder.


P.S. E o tiro na testa? Infelizmente, esse é um dos perigos na luta pela democracia e pela liberdade. Mas, homens que não lutam pela liberdade, não estão maduros para viver livremente. E mais ainda, não basta para se livre, ser forte, aguerrido e bravo. Pois, um povo que não tem virtude, acaba por ser escravo. 

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