segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Um jogo para a história


Há quem não veja no futebol a magia que faz dele o esporte mais amado do mundo. A essas pessoas sem imaginação, meu sincero pesar. Camus, por exemplo, dizia que o caráter de um homem pode ser medido em um jogo de futebol. Por outro lado, há sujeitos que o veem simplesmente como um esporte interessante, ainda que não tenham preferências clubísticas nem se considerem fãs.

Há, claro, os torcedores, que se dividem em vários tipos, mas podemos dividi-los em três categorias: os fanáticos, que acompanham tudo sobre seu time, tatuam no próprio corpo os emblemas, vão a todos os jogos, etc. Os passionais, que brigam com os torcedores adversários, xingam mais do que torcem e nunca estão satisfeitos. E há também os eventuais, que só se declaram quando o time está em alta. Claro que existem dezenas de outras categorias e mesmo subcategorias de torcedores. Mas isso é outra história...
 
O futebol nos conquista por motivos diferentes e nem sempre sabemos dizer por quê. Quem o enxerga apenas como um esporte, com suas regras e estatísticas, com seus favoritos e suas lógicas, perde o que há de transcendental no futebol: seu encantamento reside justamente na sua imprevisibilidade; sua magia está na eternização de um momento; sua graça está na possibilidade de agregar criaturas opostas em um mesmo sentimento. Nos envolvemos com o futebol como nos envolvemos com a vida. E ele também nos ensina, nos dá lições e rasteiras. Alegrias e tristezas. E nos marca para sempre.
 
Para quem consegue enxergar no futebol um simulacro da vida, com suas conquistas e frustrações, tem diante de si uma dimensão grandiosa desse espetáculo. O jogo se potencializa e pode se tornar uma epopeia. Heróis, vilões, batalhas épicas e lendas eternas são criadas dentro de um campo de futebol. Vitoriosos canalhas e derrotados dignos também nos marcam e nos ensinam. E nos lembram que o futebol, como a vida, vai além das aparências.
 
Ontem foi o último jogo disputado no Estádio Olímpico Monumental. Se um time representa uma paixão, um estádio representa um lar, com seu aconchego, sua familiaridade. No estádio de nosso time nos sentimos em casa. Nos sentimos em família. E lembrar do Olímpico, para mim, é como lembrar de uma casa em que já morei, onde fui feliz, onde me entristeci. Mas, acima de tudo, é lembrar de uma paixão e de tudo que ela evoca. Lembrar do Olímpico é como lembrar de um abraço. E muitos foram os abraços que o Olímpico me deu.
 
Não estive ontem no Olímpico. Estou longe de casa há muito tempo. Mas posso imaginar a atmosfera que cercava os privilegiados que tiveram a chance de curtir uma última vez o estádio. De acariciar suas arquibancadas, de cantar a plenos pulmões o seu amor a um mesmo objeto de devoção, de sentir o sol do fim da tarde tostando o rosto de quem fica na geral, de olhar para o tradicionalmente belo gramado. Imagino que, qualquer que fosse o resultado, não queriam que o jogo acabasse nunca. Não pelo jogo (também por ele), mas por essa estranha sensação de se sentir em casa. Na nossa casa.
O jogo não teve um roteiro ideal. Foi um Gre-nal, com todas as suas idiosincrasias. O Grêmio não se despediu de sua casa com a vitória que almejava. Pelo menos não dentro de campo. Mas isso, diante de tudo o que representava o dia de ontem, até nem foi tão ruim.
 
Antes do jogo, os afortunados que estiveram presentes puderam rever e reverenciar alguns de nossos ídolos. E mesmo os que já se foram devem ter estado lá de alguma forma. Ênio Rodrigues, nosso capitão; Vítor, primeiro gol no estádio. E tantos outros, como Ancheta (zagueiraço), Iura (o gol mais rápido de um Gre-nal), Éder (o Canhão), André Catimba (do gol mágico), Tarcíso (quem mais vestiu o manto tricolor), Renato Portaluppi (nosso grande ídolo, herói de tantos títulos), China, Mazaropi (goleiro do Mundial), De León – mítico Hugo de Leon: sua imagem sangrando com a Taça Libertadores na mão é a imagem que melhor sintetiza a história centenária de nosso time; Danrlei (goleiro torcedor e multicampeão), Airton Pavilhão (zagueiro da melhor estirpe, que deu um chapéu em Pelé), Carlos Miguel, Paulo Isidoro, Lara, Paulo Nunes, Ortunho, Dinho (o cangaceiro dos pampas), Cuca, Arce, Rivarola, Ailton, Alcindo, Osvaldo, Baltazar (o iluminado), Jardel (e seus tantos gols), Felipão (o nosso Felipão), Foguinho, Nildo e tantos e tantos outros que desfilaram seu talento e sua garra por nosso gramado e ontem, de uma forma ou de outra, estavam presentes.
 

O Olímpico, palco de tantas glórias, de tantas batalhas, de tantos gritos de gol, se foi. O Olímpico, das alegrias e conquistas. De frustrações e tristezas. O meu Olímpico. O teu Olímpico. O nosso Olímpico. Vai acabar, vai vir abaixo, vai ser outra coisa. Vai morrer!
 
Mas, será que dá para matar um estádio? Será que uma construção tem alma? Sentimentos? Será que por entre tijolos e cimentos, entre vigas e concreto, existe um coração que pulsa? Gosto de pensar que sim. Aquele pedaço de chão no bairro Azenha vai ecoar para sempre os gritos de gol, que tinham os que já foram como testemunha. Vai ressoar os milhares de corações que aceleravam a cada vez que a bola cruzava a linha do gol e cumpria a sua missão.
 
O Olímpico não vai mais existir. Seu corpo será destroçado. Mas sua vai alma existir para sempre em nossas memórias, nossas lembranças e nossos corações. Mesmo que não sobre pedra sobre pedra do Olímpico Monumental, ele será sempre um monumento à nossa paixão.
 
Porque o Olímpico é imortal!
Obrigado por tudo, casa querida!

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