quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Na esquerda ou na direita?


Não, esse não é um texto sobre posicionamento político ou debates ideológicos. E sim, essas demarcações ainda existem. Esse é um texto bem mais leve. Trata da tradição de se usar o relógio no pulso esquerdo e o estranhamento com quem o usa no direito (como eu).

Antes, como é costume nesse blog, vamos contextualizar o uso (recente) do relógio de pulso e entender como surgiu o costume de usá-lo na mão esquerda. Era uma vez uma princesa... É isso mesmo, o relógio de pulso foi “inventado” por uma princesa.

 Na verdade, Maria Annunziata Carolina Murat, mais conhecida como Carolina Bonaparte, era irmã de Napoleão Bonaparte e tornou-se rainha consorte do Reino de Nápoles (na época a Itália ainda não havia sido unificada, mas isso é outra história). O uso do relógio era comum entre homens da aristocracia, mas ele era de bolso, preso à roupa por um cordão, geralmente de ouro. Querendo ostentar também o adereço, Carolina encomendou a um joalheiro que lhe fizesse um relógio mais feminino, que ela pudesse usar como uma pulseira. Pronto, nascia o relógio de pulso, essencialmente para mulheres.


Mas não tinha sido o Santos Dumont o inventor do relógio? Pois é, ele também. Como assim? O fato é que o pai da aviação não inventou o relógio, mas foi responsável pela sua popularização. Lembrem-se que o relógio de bolso era uma joia, usada apenas pelos mais abastados. A versão feita para Carolina Bonaparte era exclusiva, jamais foi comercializada. Houveram outras versões, como a da empresa Patek Philippe, mas eram femininas.

Assim, em 1904, quando fazia suas peripécias em Paris a bordo de dirigíveis, Alberto Santos Dumont, percebeu que tinha dificuldades em manejar os instrumentos e conferir o relógio (já que precisava verificar quanto tempo ainda tinha de autonomia antes de pousar - ou cair). Pediu então a um amigo que lhe criasse um relógio de pulso. Esse amigo era ninguém menos que Louis Cartier. Nascia o relógio de pulso masculino que, conceitualmente, pouco mudou desde então.

Mas e a mão esquerda nessa história? Santos Dumont era destro. Manejava os instrumentos de suas máquinas voadoras com a mão direita. A mão que lhe sobrava mais livre, então, era a esquerda e foi ali que ele colocou o relógio. Por razões estritamente práticas, nada mais. Como ele foi o “garoto propaganda” do relógio (que inclusive levou o seu nome e ganhou recentemente uma edição comemorativa – foto abaixo), todos os que adquiriam relógios a partir de então passaram a usar na mão esquerda.


O Cartier "Santôs"
Durante a 1º Guerra Mundial o uso do relógio (assim como dos aviões) foi massificado. Logo ele deixou de ser um produto exclusivo da elite e passou a ser usado por quase todos. A ideia de que “o certo era usar no pulso esquerdo” se consolidou de tal forma que manuais de etiqueta lhe recomendavam o uso dessa maneira. Outro fato que contribuiu para essa forma de portar o relógio era que, como a maioria de população é destra (mais de 90%) o relógio seria um empecilho para as atividades manuais como a escrita, por exemplo. Os fabricantes, claro, acompanharam o costume e é muito difícil ver relógios com a coroa voltada para lado esquerdo (que seria o ideal para quem usa no pulso direito), embora já haja alguns modelos assim.

Acontece que hoje o uso do relógio, sobretudo entre os mais jovens, é cada vez mais incomum. Com celulares que fazem (quase) tudo e dão, inclusive, as horas o relógio passou a ser um objeto supérfluo, usado mais como um acessório estético. Eu não me enquadro nesse grupo. Não consigo sair de casa sem relógio. E uso na mão direita. Porque eu quero ser diferente dos outros? Pode até ser, mas o fato é que não preciso pilotar um dirigível e prefiro usá-lo no pulso direito. A ideia de que há um lado certo, assim como na política, depende da visão de cada um. E você, de que lado usa?

( ) esquerdo ( ) direito ( ) não uso
 
Aqui um belo comercial da Cartier que remete às origens da criação do relógio. Interessante notar as escancaradas referências aos BRICs. Não é por acaso: com a Europa em crise o mercado de luxo está migrando para os países emergentes.


 
 

 

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