sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A Europa em chamas


A Europa em chamas

Os protestos na Europa parecem não ter fim. Sobretudo na Espanha e na Grécia, onde a sociedade não aceita os “ajustes” que os governos têm feito para tentar conter os prejuízos na economia. Os espanhóis preparam para amanhã (29 de setembro) mais uma manifestação em frente ao Congresso para pedir novas eleições e uma nova constituição (em meio a tudo isso a região da Catalunha cogita a independência).
 
Na Grécia, depois de sucessivas negociações frustradas, o atual governo de coalizão do primeiro-ministro Antonis Samarás tenta convencer os gregos a tomar mais algumas doses de um remédio amargo (sem saber se isso vai significar a cura do paciente).
 
Tudo isso ainda é reflexo da crise global de crédito, iniciada em 2008, e que nestes países têm tido impactos mais contundentes: Portugal e Itália estão no mesmo caminho. No entanto, existem outras questões de fundo, ou nem tanto, que merecem atenção.
 

Welfare State


Depois da 2º Guerra Mundial, com a Europa praticamente em ruínas, surgiu o conceito do “bem-estar social”. Baseado no keynesianismo, a ideia era que os governos provessem aos cidadãos recursos mínimos de subsistência. O “Estado Providência” garantiria a todo o indivíduo, desde seu nascimento até a sua morte, uma série de bens e serviços, através de sua capacidade de regulamentação sobre a sociedade. Entre esses direitos se incluem educação em todos os níveis, a assistência médica gratuita, o auxílio desemprego, uma renda mínima, etc.
 
 Ao longo de toda a metade do século XX, este modelo se estabeleceu no continente, moldando as políticas públicas para a sociedade européia. Tais políticas geraram, ao longo dos anos, um custo cumulativo, que agora se apresenta impagável.
 
A previdência, justamente um dos pontos em que os governos pretendem intervir, tem um papel relevante nesta fatura. Primeiro porque a idade de aposentadoria em quase toda a Europa é relativamente baixa, por volta dos 60 anos. Segundo, a expectativa de vida cresceu consideravelmente nas últimas décadas. Logo, os aposentados ficam, cerca de 20 anos (ou mais) recebendo benefícios. E um terceiro fator é justamente o envelhecimento generalizado da população européia. Ou seja, há cada vez menos jovens no mercado de trabalho para bancar uma crescente demanda da previdência.

 Cortes

 Os cortes anunciados na Europa incidem, basicamente, sobre a política social. Ou seja, quem vai pagar a conta pela ineficiência do Estado será o cidadão. Em alguns casos, os benefícios sociais se tornaram, de fato, inviáveis. Porém, a solução pelo corte puro e simples a longo prazo cria um problema ainda maior. Cortando-se postos de trabalho, prejudica-se a economia, gera um maior número de desempregados, que por sua vez, vão demandar mais ações do Estado. Cortando-se benefícios como assistência à saúde, de modo preventivo, amplia-se a demanda por assistência médica mais complexa, que por sua vez custa mais caro aos cofres públicos.

 Com a guinada à direita que vive a Europa hoje, os governos estão preocupados em dar sinais de agilidade e eficiência ao mercado. Mas com protestos, paralisações, greves e desemprego, não há mercado que resista. Mais uma vez, a cartilha liberal parece ignorar as lições que a onda do “laissez-faire, laissez-passer” causou ao mundo na crise de crédito.
 
Além destas questões, há outra que sacode a Europa hoje. Como sempre em momentos de crises estruturais é preciso achar um bode expiatório. Isso já criou situações delicadas e dramáticas. E cria também um paradoxo interessante.
 

O paradoxo da xenofobia

 
Como se não bastassem os efeitos devastadores da crise sobre o velho mundo, nos últimos anos a Europa tem vivenciado uma onda de xenofobia sem precedentes. Porque desta vez, não só parcela da sociedade hostiliza os imigrantes, mas as autoridades têm criado diversos complicadores para a vida de estrangeiros por lá.

 Porém, isso cria um complexo paradoxo: por um lado, os imigrantes (oriundos, sobretudo, do norte da áfrica, eurásia e leste europeu) são acusados de causar o desemprego entre europeus, mas por outro, é a mão de obra imigrante que ocupa as vagas que os “desenvolvidos” não querem. Outro argumento da xenofobia é que os imigrantes são cada vez mais numerosos, tem uma média de três filhos e não param de chegar. De outro lado, a Europa está cada vez mais velha, com uma taxa de natividade baixíssima e, consequentemente, um decréscimo populacional acentuado.

 Por tudo isso, o momento por que passa a Europa é delicado e gera preocupação. O mundo espera o desfecho dessa crise com ansiedade. Resta torcer para que medidas populistas e apressadas dêem lugar a ações refletidas, políticas duradouras de crescimento sustentável e, principalmente, reconciliação da Europa com sua tradição de pluralidade e tolerância.
 
 
 
 
 
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