quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O dito e o não dito sobre o Wikileaks e Julian Assange


A história de Julian Assange e seu ativismo digital ainda vão parar em Hollywood, certamente. Desde que o portal Wikileaks começou a fazer barulho, alguns anos atrás, com o vazamento de documentos sigilosos de governos dos quatro cantos da Terra, o nome de Julian Assange tornou-se mundialmente conhecido.

Não vou contar toda a história aqui, seria uma redundância com tudo o que se tem publicado a respeito do assunto, mas apenas alguns detalhes pouco comentados desse roteiro.

Detalhe 01: o crime
O gajo estava se esbaldando na companhia de duas moças. O sexo foi consentido e a festinha seguia animada até que, supostamente, o preservativo estourou. Foi o que bastou para que Assange fosse denunciado por Anna Ardin (uma das moças, a outra é Sophia Wilen). Aliás, vale a pena assistir ao documentário “Sex, Lies and Juilan Assange”.
 
 




Revela inúmeras controvérsias na versão de Anna, com quem Assange mantinha uma relação mais antiga. Além de várias outras histórias que muitos preferiam que ficassem no anonimato.
Mas, então foi só isso? A camisinha estourou? Sim, mas “só isso” na Suécia equivale a um estupro. Embora essa contextualização raramente apareça na mídia.


Detalhe 02: extradição

Assange, mesmo que ainda não tivesse sido condenado, já usava uma caneleira com localizador, instalado pelas autoridades britânicas. Ou seja, enquanto ele aguardava o pedido de extradição da justiça sueca ele estava sob guarda dos britânicos. Vendo que sua batata iria assar ele buscou asilo na embaixada do Equador, cujo presidente, notoriamente, tem uma postura de não alinhamento com as “potências globais”.

E aí criou-se o impasse que ora assistimos. O governo equatoriano concedeu asilo a Assange por entender que “sua integridade física e seus direitos humanos estavam ameaçados”. O governo britânico ameaçou invadir a embaixada invocando o seu “Diplomatic and Consular Premises Act”, de 1987. No entanto, a Convenção de Viena, de 1961, em seu artigo 22 diz claramente que embaixadas e missões diplomáticas são invioláveis. A Grã Bretanha é signatária dessa convenção. Ou seja, mesmo para um país sem constituição escrita, como no caso dos britânicos, leis internacionais têm preponderância sobre leis nacionais. Ou pelo menos deveriam ter.

A Unasul (União das Nações Sul-Americanas) deu seu total apoio ao governo equatoriano por entender que ele agiu seguindo todas as regras do direito internacional e, portanto, tem soberania sobre sua embaixada e sobre quem ela abriga. Aqui o link se quiser ler na íntegra a Declaracion de Guayaquil, na qual a entidade respalda a atitude do Equador.
Detalhe 03: O ir e vir
É uma situação kafkaniana a que vive o australiano Assange nesse momento. Está cercado na embaixada do Equador em Londres, com o pedido de extradição para a Suécia de onde, provavelmente, seria enviado aos Estados Unidos, onde poderia receber inclusive a pena de morte, como pregam alguns deputados republicanos nos EUA. Um de seus advogados, o espanhol Baltasar Garzón (aquele mesmo que infernizou a vida de Pinochet) vai pedir à Corte Internacional de Haia que seu cliente tenha salvo-conduto da embaixada até o aeroporto e de lá até o Equador. Teoricamente a Corte não poderá negar o pedido, já que tudo corre dentro das regras do direito internacional. Resta saber se os britânicos vão acatar a decisão.
Assange se dirige ao mundo da sacada da embaixada
Detalhe 04: O Pronunciamento

No domingo, 19 de agosto, com todo o circo já armado ao redor da embaixada, Julian Assange apareceu diante de uma multidão que o ovacionava e fez um breve pronunciamento. Ele sabia que o fosse dito ali seria retransmitido para o mundo todo através da tv, do rádio, dos jornais e revistas e, principalmente, seria replicado centenas, milhares, milhões de vezes através das redes sociais. Ele sabia que, naquele momento, o mundo o observava e ciente disso falou:
            
“Estou aqui porque não posso estar mais perto de vocês. Muito obrigado por estarem aqui. Obrigado pela sua decisão, e toda a sua generosidade de espírito. Na noite de quarta [15/8], após uma ameaça ter sido enviada a esta embaixada, e a polícia ter descido no prédio, vocês vieram no meio na noite para vigiar isto, e vocês trouxeram os olhares do mundo com vocês. Dentro da embaixada, na escuridão, eu podia ouvir equipes de policiais entrando no prédio pela saída de incêndios interna. Mas eu sabia que haveria testemunhas. E tudo graças a vocês. Se o governo britânico não jogou fora o Tratado de Viena na outra noite, isto foi porque o mundo estava olhando.”

Xeque-mate!

Detalhe 05: Palavras ao Vento

Diz o ditado que as palavras, uma vez ditas, não voltam mais e isso as faz tão poderosas. Em uma sociedade em rede como a contemporânea, na qual tudo se propaga de forma quase incontrolável, tanto o pronunciamento de Julian Assange como os documentos que ele revelou ao mundo já não podem mais ser silenciados, esquecidos, apagados, controlados.

A multidão (entre eles muitos com a máscara de GuidoFawkes/Anonymous) que o assistia e seus milhares de fãs ao redor do mundo vibravam com cada palavra de um dos heróis de nosso tempo. Não, você não leu errado, eu disse herói mesmo. O simples fato de pessoas tão poderosas o quererem sob controle (ou morto) é uma significativa credencial de sua importância na sociedade atual.

Nos resta agora torcer para que o filme tenha final feliz...




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