sexta-feira, 17 de agosto de 2012

As greves de cá e as de lá..


Estamos vivendo um período fascinante de insurgências: Primavera Árabe, Indignados, Wikeleaks, Occupy, Avaaz, 15M, 99%, Anonymous, inúmeras marchas e incontáveis greves. Provavelmente o mundo não vivia uma fase assim desde 1968: contracultura, movimento hippie, revoluções. Ou, como diziam os Beatles “todos nós queremos mudar o mundo”.

Por aqui, no entanto, as manifestações coletivas (ou visando o “bem coletivo”) ainda não tiveram a mobilização que se viu em outros países. A Marcha Contra a Corrupção, para ficar apenas no exemplo mais óbvio, atraiu pouco menos de 20 mil pessoas em Brasília. Lugar onde, teoricamente, deveria reunir 10 vezes mais do que isso. No mínimo!

Mas, no momento, são as greves que têm ocupado o noticiário. As universidades federais completam hoje três meses de paralisação sem muitos avanços nas negociações e sem perspectivas de retomar as aulas. Na esteira das universidades diversas categorias do serviço público federal cruzaram os braços por melhores salários, valorização do servidor, estruturação da carreira, etc.

Não entrando no mérito (polêmico) do quanto essas paralizações têm prejudicado a sociedade – a velha questão do direito individual x direito coletivo – as manifestações dos grevistas, inclusive na Esplanada dos Ministérios e Praça dos Três Poderes, demonstra que avançamos muito no amadurecimento das instituições democráticas. O simples fato dos grevistas poderem ocupar as faixas do Eixo Monumental e a Praça dos Três Poderes em plena CPI do Cachoeira, no Congresso e Julgamento do Mensalão, no STF é sinal de que as garantias individuais, previstas na Constituição, estão se consolidando no Brasil.


Imagem mostra como STF, Congresso e Planalto ficam próximos
O mesmo não se pode dizer da África do Sul, infelizmente. O país que sediou a última Copa do Mundo e se apresenta como uma das mais destacadas economias emergentes (foi incluído recentemente nos BRICS) ainda não superou todas as desigualdades e problemas causados, em grande parte, por décadas de segregação. O Apartheid (1948-1994) foi um dos períodos mais desumanos do continente africano.


Como nos velhos tempos
O massacre dos grevistas ontem, nas proximidades de Johannesburgo, trouxe de volta esse sentimento. Mais de 30 manifestantes furam fuzilados pela polícia, que alegou legítima defesa. Qualquer semelhança com o massacre de Eldorados dos Carajás (1996) não é mera coincidência. Mas a relação mais aproximada é com outro fato ocorrido lá mesmo na África do Sul. O Massacre de Soweto (1976) foi um dos episódios mais cruéis do regime e acordou o mundo para os horrores do Apartheid.

Esse massacre foi uma represália do governo às manifestações de milhares de estudantes no bairro de Soweto (na mesma Johannesburgo) que protestavam contra o uso do africâner (língua da elite que a maioria da população não dominava) como único idioma no ensino. Era mais uma forma de dificultar o acesso à educação pela população negra.

Muitos estudantes foram mortos. A foto do garoto Hector Pietersen, de apenas 13 anos, sendo carregado nos braços de um colega, rodou o mundo e até hoje é uma das imagens mais emblemáticas do Apartheid.

O regime de segregação, no entanto, ainda durou quase duas décadas, até que Mandela fosse libertado e liderasse o país na direção da reconciliação. O país avançou em diversos aspectos, mas as desigualdades ainda permanecem e as tensões ficam adormecidas (ou escondidas) sob uma capa de aparente harmonia social. O assassinato dos mineiros em greve ontem é um sinal de que a África do Sul talvez ainda não tenha chegado ao sonhado “dia em que todos se levantarão e compreenderão que foram feitos para viver como irmãos”, como imaginava “Madiba”.

A música Soweto Blues, na voz da grande Miriam Makeba, é um hino aos que morreram em Soweto. Mas também soa como um lamento por todas vítimas do apartheid e das injustiças sociais, ainda tão presentes. Em qualquer lugar do mundo!

Nenhum comentário:

Postar um comentário